Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.
Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva –
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.
Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão –
Porque não tinha que ser.
Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.
“Alberto Caeiro” – Fernando Pessoa
Escrito por Ricardo às 17h41
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O espírito livre, um conceito relativo. É chamado de espírito livre aquele que pensa de modo diverso do que se esperaria em sua procedência, seu meio, sua posição e função, ou com base nas opiniões que predominam em seu tempo. Ele é a exceção, os espíritos cativos* são a regra; estes lhe objetam que seus princípios livres têm origem na ânsia de ser notado ou até mesmo levam à inferência de atos livres**, isto é, inconciliáveis com a moral cativa. Ocasionalmente se diz também que tais ou quais princípios livres derivariam da excentricidade e da excitação mental; mas assim fala apenas a maldade que não acredita ela mesma no que diz e só quer prejudicar: pois geralmente o testemunho da maior qualidade e agudeza intelectual do espírito livre está escrito em seu próprio rosto, de modo tão claro que os espíritos cativos compreendem muito bem. Mas as duas outras explicações para o livre-pensar são honestas; de fato, muitos espíritos livres se originam de um ou de outro modo. Por isso mesmo, no entanto, as teses a que chegaram por esses caminhos podem ser mais verdadeiras e confiáveis que as dos espíritos atados. No conhecimento da verdade o que importa é possuí-la, e não o impulso que nos fez busca-la nem o caminho pelo qual foi achada. Se os espíritos livres estão certos, então aqueles cativos estão errados, pouco interessando se os primeiros chegaram à verdade pela imoralidade e os outros se apegaram à inverdade por moralidade. – De resto, não é próprio da essência do espírito livre ter opiniões mais corretas, mas sim ter se libertado da tradição, com felicidade ou com um fracasso. Normalmente, porém, ele terá ao seu lado a verdade, ou pelo menos o espírito da busca da verdade: ele exige razões; os outros fé.
“Humano, demasiado humado” -trecho 225
Friedrich Nietzsche
Escrito por Ricardo às 00h48
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"... essas pessoas não podiam aceitar uma transformação que punha em relevo as verdadeiras razões de sua misericórdia fácil e de hora marcada, de sua caridade regulamentada e em quotas, de sua bonomia entre iguais, de seu anti-racismo de salão mas como é que a menina vai casar com esse mulato, de seu catolicismo com dividendo anual e comemorações nas praças embandeiradas, de sua literatura de maizena, de seu folclore em exemplares numerados e chimarrão com bocal de prata, de suas reuniões de chanceleres ajoelhados, de sua estúpida agonia inevitável a curto ou longo prazo (...). Coitado do meu amigo, tinha pena de imaginá-lo defendendo, como um idiota, precisamente os FALSOS VALORES que iam ACABAR COM ELE ou, na melhor das hipóteses, com seus filhos; defendendo o direito feudal à prioridade e à riqueza ilimitadas, ele que não possuía nada além de seu consultório e de uma casa bem montada; defendendo os princípios da Igreja quando o CATOLICISMO BURGUÊS de sua mulher apenas servira para obrigá-lo a procurar consolo com as amantes; defendendo uma SUPOSTA LIBERDADE INDIVIDUAL quando a polícia fechava as universidades e censurava as publicações, e defendendo POR MEDO, POR HORROR À MUDANÇA, por ceticismo e por desconfiança, os únicos deuses vivos em seu POBRE PAÍS PERDIDO."
_Julio Cortázar ("Todos os fogos o fogo", do conto "Reunião")_
Escrito por Evelynn às 16h05
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"EU"
Sou louco e tenho por memória Uma longínqua e infiel lembrança De qualquer dita transitória Que sonhei ter quando criança.
Depois, malograda trajetória Do meu destino sem esperança, Perdi, na névoa da noite inglória, O saber e o ousar da aliança.
Só guardo como um anel pobre Que a todo herdeiro só faz rico Um frio perdido que me cobre
Como um céu dossel de mendigo, Na curva inútil em que fico Da estrada certa que não sigo.
Fernando Pessoa
Escrito por Ricardo às 13h20
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Fernando Pessoa
Cancioneiro
Sonho. Não sei quem sou.
Sonho. Não sei quem sou neste momento. Durmo sentindo-me. Na hora calma Meu pensamento esquece o pensamento, Minha alma não tem alma.
Se existo é um erro eu o saber. Se acordo Parece que erro. Sinto que não sei. Nada quero nem tenho nem recordo. Não tenho ser nem lei.
Lapso da consciência entre ilusões, Fantasmas me limitam e me contêm. Dorme insciente de alheios corações, Coração de ninguém.
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Escrito por Camila às 22h00
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Ah, depois de tanto tempo...Gostaria de agradecer pelo escrito cedido, que aliás é uma crônica, e espero que gostem...O texto é da Elaine, rs, valeu pela crônica para um reles blogger, Abraço menina, e à todos.
Brasília: capital da ambivalência
Capital do tédio. Espelho embaçado de um país incompleto cheio de traços perfeitos e senis destroços. Capital de um estado; de um estado-de-alma. Se fossem só as luzes todas organizadinhas fazendo formas geométricas a um olhar-de-cima; se fosse só o formato de avião que metalingüisticamente vemos na materialidade própria de um olhar no sobrevôo... Mas, Brasília, é muito mais do que isso. Brasília é um avião estático em um aeroporto ainda em construção. Deus... Só agora percebo que um avião parado só pode servir de exemplo de amostras passadistas, que aludem a invenções, estórias e personagens. Qual a alma de um avião parado? Avião nasceu pra voar, nasceu pra ter asas que se movimentam e não asas que ficam sempre estáticas por elementos colantes e concretos. Brasília não voa. Brasília não tem alma. Ou então, a alma do avião que foi desenhado, está em um profundo processo de evolução que se entedia.
Brasília é um avião parado, e agora com seus quarenta e poucos anos no chão entram nesse avião diversos passageiros, uns que ficam dentro e olham a vida por essas janelinhas pequeninas e se divertem; outros se cansam das mesmas janelinhas que mostram sempre nuvens e céus. Os que se entendiam esquecem, que, as paisagens das nuvens mudam, e vêem no céu apenas espuminhas brancas e flutuantes.
O céu não é mar, nuvem não flutua. Ainda assim, pro indivíduo que se diverte dentro do aeroplano, o céu é um mar, as nuvens vivem em um devir animal-naus; por horas as nuvens retratam velhos caducos com cabelos brancos, ralos e escassos; em outras horas: sereia em praia tropical encantada. No céu cabem tantas nuvens e astros; nos mares tantas vidas e sobrevidas.
Brasília é um avião que está em um céu de terra, as nuvens desse céu daqui de baixo são os motores e as fumaças nos espaços largos que parecem avenida-do-mundo-inteiro. O mar é em cima, no lugar do céu; e aqui, estamos sempre em uma insegurança que diz a respeito da queda; o medo da queda é o tédio de cada morador que procura veementemente vida fora dos barzinhos. Às vezes encontram uns lugarzinhos verdes feitos, pra se fumar coisinhas verdes; os lugares são quase oníricos, e infelizmente o perdemos no sonho, junto com morfeu e com os ilogismos relativos a tempo-espaço.
Depois do sonho, o que resta?
Casa com janelas abertas, um olhar ao mar-invertido, duas voltas na chave da porta, um bom punhado de livros, e um telefone pra manter contato dentro desse avião, porque uns estão na primeira classe... aahh, e por aqui, a primeira classe circunda o plano-piloto; os ricos estão nesse céu de terra, do lado de fora do avião e ainda assim são ricos! A primeira classe fica fora do avião; deus... Isso é quase surreal! É por isso que me entedio em Brasília, quando eu acho que uma coisa será de tal maneira é exatamente o contrário. Daí eu fico com uma dúvida, de alguém que só morou em um único lugar: esse problema do eterno-engano é só dentro do avião? É por isso que quero ir pro porto. Quero um mar de verdade daqueles que objetos navegam pelo empuxo. Por isso que quero ir pra Portugal, lugar onde pelo menos o nome concorda com o país, lá, deveras, falam a minha língua.
A minha ambivalência não está só em mim, está nesse avião que não voa, e que brinca de fazer de terra: céu.
A capital do tédio, e talvez da esperança também: meu deus! quando esse avião vai voar no lugar certo?
Não é à toa que foi apelidada assim!
O que se esconde por trás de toda ambivalência e de descrições aéreas, é que, de maneira quase irracional, nessa linha tênue que separa a loucura e a desrazão, é que, eu amo essa cidade. Aqui é diferente, o avião está parado, e ainda assim, voam no chão. Sim. Brasília tem alma! E a alma é construída pelo amor ao tédio e aos barzinhos; pelo amor à inação, e as gramas, musicais ou não.
Brasília é um avião que rasteja e que tenta andar.
E os anos que não passam...
Elaine C.
7 de fevereiro de 2004.
Escrito por Ricardo às 19h07
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104 anos.... 

"Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. É possível que se encontrem entre aqueles que compreendem o meu `Zaratustra`: COMO EU PODERIA MISTURAR-ME ÀQUELES A QUEM HOJE SE PRESTA OUVIDOS? – SOMENTE O FUTURO ME PERTENCE. HÁ HOMENS QUE NASCEM PÓSTUMOS.
As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido – conheço-as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas – e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; NUNCA PERGUNTAR SE A VERDADE SERÁ ÚTIL OU PREJUDICIAL... Possuir uma inclinação – nascida da força – para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de SETE SOLIDÕES. OUVIDOS NOVOS PARA MÚSICA NOVA. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo – acumular sua força, seu entusiasmo... Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo... Muito bem! Apenas esses são meus leitores, meus verdadeiros leitores, meus leitores predestinados: que importância tem o resto? – O resto é somente a humanidade. – É preciso tornar-se superior à humanidade em poder, em grandeza de alma – em desprezo..."
_Nietzsche (no Prólogo do livro "O Anticristo")_
Escrito por Evelynn às 06h23
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RUBAIYAT
O fim do longo, inútil dia ensombra.
A mesma sp´rança que não deu se escombra,
Prolixa... A vida é um mendigo bêbado
Que estende a mão à sua própria sombra.
Dormimos o universo. A extensa massa
Da confusão das cousas nos enlaça.
Sonhos; e a ébria confluência humana
Vazia ecoa-se de raça em raça.
Ao gozo segue a dor, e o gozo a esta.
Ora o vinho bebemos porque é festa,
Ora o vinho bebemos porque há dor,
Mas de um e de outro vinho nada resta.
F. P.
Escrito por Camila às 19h50
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Parte II
Como as lágrimas – ou minhas? – podem ser “fins”. Ò que belo paradigma ideal para escrúpulos – infinitas até o ínfimo de questionamentos -... A vida é lágrima? Um momento não é vida sem a concepção da simultaneidade – o nascimento é lágrima. As lágrimas que me escorrem não são apenas as mesmas de outrora. Viver num falsídico além pede sempre um porto de despedida – de partida -. E não quero partir em “portos” que depois se partam: se tornem um longínquo refúgio para um medo-além, para uma hostilidade dotada de uma maior coerção, de um maior grau de inversão da liberdade. Bom é quebrar as perspectivas, jamais conseguirei se as ações humanas se tornaram perspectiva – ou a segura e completa falta dela -. Tudo é tão parecido com o que minha íntegra percepção e racionalidade dotada de lógica, que é muito fácil reconhecer os “quaisquer” solos, as totais “estacas” de perspectiva e maneiras seletivas de concepção de virtude. Sinto o cheiro do molhado da terra, sinto o gosto amargo do sal do mar desconhecido: sinto as matrizes e os endereços prováveis, só não ainda me encontrei: talvez eu seja a construção, o concreto esfarelado e quase tosco e disforme das ‘massas fisiológicas e espirituais”.
A vida não é lágrima – é o amargo?-. Há tão poucas lágrimas em tão pouco espaço de rosto em tão poucas pessoas – não sou eu o contador, não sou eu aquele que faz de sua contabilidade a certeza para o que há de inconsciente na consciência, e tudo o que fazemos, sempre há os ínfimos resquícios da convergência do objeto-ego -. Agora sei: quem pensa que o mar dos olhos é o mesmo que o mar de gente é porque reduz o viver radial à sua existência. Os graus e gêneros – ora são iguais, ora parecidos -, mas o número é parte de universos distintos. Reduzir uma gota de lágrima a um mar de sofrimento é cair escada abaixo sem ter o controle certo para a subida. E se só sentimos cair, é porque o cair pode ser facilmente o subir: direções iguais, sentidos opostos. Apaguem-se os sinais, dêem-me um “soco contrário” ao vetor-cair. Isso só são extremos. A alma é um abismo e o ser humano precisa viver de extremos, mesmo que algures e em qualquer momento, o “estar num pólo” seja um grau de maior inverdade.
Existe algo exterior ao que sentimos, que ecoa e reverbera em risos com graça, choros sem graça. Quem sou, afinal? Talvez se soubesse estaria morto – e não acredito nisso: não me comparem aos simbolistas místicos -. Para quão longe meu destino me conduzirá? Ou o destino é um “fim”? “Carroças de tudo pela estrada do nada”? Ou trens que se movem sem nada com infinidades incompletas de pessoas à sua margem: de minha janela translúcida e tão lúcida, que é tudo? “Um apito alto na carruagem da despedida, ou um grande “sim” em movimentos harmônicos simples que ironizam um grande “não”?
Sei que fui Cesário Verde, que em sua “plasticidade”, que é um tênue e sutil sentir, talvez a proximidade com o Parnasianismo: um ouvir e ver – eis as ferramentas da descrição - . Talvez estive sempre algoz de um andar contrário, algo que seja a energia, e com o qualquer tempo se dissipe em matéria. Talvez seja César, que em seu meio fez nascer-nos uma grande herança de organização e da presunção de se elevar a uma unidade. E o que, politicamente e socialmente organizada, tenha deixado nascer – ou quem sabe por isso mesmo – um movimento anarquista e cristão. E todos os venenos foram deixados em grande “quebranto”; grande alvejar em si próprio. Eis que o suicídio de toda organização está na maneira “desordenada” e ‘ideal’ e romântica de todos os movimentos que buscavam uma ‘igualdade’, ou a falta de unidade. Assim fui um pouco do que sobrou disso, dessa forma leal de cultura, dessa liberdade para o “crescimento”. Acho que sou filho daqueles europeus, que no final do século XIX, chegaram a um ceticismo muito viril, que lhes fizeram cair em descrença. O ceticismo, à priori, foi de grande feitio para a busca das respostas impossíveis. E o que fui eu? Para onde me direciono, onde minha vontade e o meu poder se direcionam? E o ceticismo “venenoso” e “destruidor” se difundiu em países onde a ciência se encontrara em seu ápice. Os homens objetivos caíram em desgraça, caminharam para um niilismo. Em países mais bárbaros isso foi bem mais tênue, na França foi a forma mais desenvolvida. Os grandes eruditos daquela época, principalmente os cientistas, eram escravos daquele período, claro que escravos nobres: de respostas mais nobres e que exigem maior seriedade. Mas não eram os homens “pretendidos”, aqueles que tinham a virtude do faro para a busca da verdade. Aquele que não aceita, aquele que tem abismos de conflito interior. Os verdadeiros espíritos livres. Que constroem e destroem sem o menor pudor, sem a menor economia. Alguém, de um grau obséquio, saberia onde me encontro e para onde está o meu destino? A vida é o agora: “então vamos pra vida!”.
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Quando olho para mim não me percebo. Tenho tanto a mania de sentir Que me extravio às vezes ao sair Das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo, Pertencem ao meu modo de existir, E eu nunca sei como hei de concluir As sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente reparei, Se na verdade sinto o que sinto. Eu Serei tal qual pareço em mim? Serei
Tal qual me julgo verdadeiramente? Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu, Nem sei bem se sou eu quem em mim sente. |
(Álvaro de Campos)
Escrito por Ricardo às 02h40
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Parte I
Quão intensamente em quantidades não temos a causalidade de perguntas de reflexo? Sim, perguntas que vivem de carne e consomem nosso gênio. Como algo perfeitamente instintivo, que emana em nós uma superficial consciência, que é o arguto-livro de consultas que constrói em si os alicerces de retenção da lógica. E quantas vezes esse escrúpulo não refletiu raios de mesma natureza em “respostas”: que são os objetos – quem sabe dos brechós – tão delineados para um paralelismo do poço-abismal-objetual. Pois bem...Sento e fixo meus olhos para o arquétipo conjuntural da cidade – e o abismo miscelânico de luzes -, e há todos uns desenhos que me são infinitos pontos em formatos próprios e valorações que partem de todos os sentidos e todos os “arbítrios” e “juízos” possíveis.
Quem sou? (...) Quem sou eu?
Eu que em meio a tanta escuridão, só percebo o pouco colorido do chão – acima são percepções descontínuas e de cunho passageiro: quase que imperceptíveis -, e o chão, é um chão-caminho de onde vim e para onde o cansaço me faz esperar e não ter qualquer segmento para o fim. Por quantos desses concretos não estive – mas tenho sorte -, esse concreto que se mistura em amarelo-rosa: tudo isso é resultado de minha presença – quando olho para a minha sombra – e o resto é um sentido de mistura completa, são resquícios de cores mortas que em suas mesclagens, faz-do-qualquer-caminho uma cor de mistério. E tais contornos trazem em si uma semântica de um caminho: um percurso. E por quantas vezes não fui transeunte? Por quantos e demasiado quantos, as espirais de vielas não me pareceram algo análogo a um ir dirigido a um objeto, uma mira e um ponto convergente que inspirasse ser uma conseqüência: de um controle reduzido com um descontrole hiperbólico. E o diferenciar isso me reduz, traz à tona minha eterna presunção, minha incurável e sublime fatalidade.
Aqui sentado – sempre o meu sentar foi algo tendencioso à proximidade de um “deitar”, quero sempre pensar e quem sabe treinar meu espírito às profundezas -: percebo realmente que o “querer” chegar ao vazio é-me muito próximo – posso ter certeza? -. O vácuo é bem mais delineado e geométrico quando temos passarelas e percursos à imagina-los. Tudo me parece mais fixo, faz-me balançar menos e aguçar os sentidos: algures não existe mais. O “nada” tem forma – que grande imperativo, o nada tem “forma” -: até mesmo tem-se o objeto-causal dessa fatalidade. Inspiro e expiro: estou vivo? Penso sempre me dirigindo a mim – poderia ser diferente? O pensar precisa de gênero, número e pessoa? Ou será que nesse método não tem um lugar para o “ou”: que é o meu maior grau de dúvida, de inspiração para a negação do destino -. E também tenho eternas lembranças, o simples ter “lembrança” é estar na inércia existencial, e por isso assim, que me são eternas. É o efeito dominó da vida, um efeito que tem agente ativo e passivo.
Em minha vida fui sozinho e o serei assim. Lembro-me instantaneamente de palavras-dum-filósofo-filólogo: “A fortuna de minha existência está em sua fatalidade”. Quem sou eu e para onde me dirijo: e de que forma? E é assim que rio – e não me prendo a unicamente sorrir: o sorriso é algo mais próximo de um estado e de um ser social – de toda tragédia, elas parecem-me uma comédia. Não rimos – mesmo em acuidades de falsidades práticas da vida - sempre da vida? O viver é um grande sofismático palco trágico – e cômico e dramático,etc - . Por que não hei de sorrir e rir? De que me valem impulsos quando os mesmos me são apenas resultados de uma classificação moral? Isso é ser enganado pelas próprias convicções. É ter um impulso dotado de uma distorção sem igual, e seguramente: é como agir e sentir com um roteiro que sequer entendemos. Isso é uma pré-virtude, um preconceito que não só ataca as convicções, como também desfigura e transmuta o sentir. Não acreditemos tanto no sentir, e acreditemos de forma cética ao extremo do roteiro-do-sentir.
Também olho as estrelas e também olho – que forma desfigurada e mentirosa de sentir – os espaçamentos delas: o absorver completo e refletir em graus diminutivos. Não, não sou um tal positivista, nem tampouco racionalista – apenas olho. Já andei, triste ou mais livre para a verdade, e caminhei muito – para só mim? – e: como era de se esperar: observei muito os objetos, e por assim dizer, os ângulos das formas. Sei com elevada probabilidade a meu favor, que estive em observatório social, assim como essa constante é válida para o grau-plural – ou diversidade – de ações humanas: aqui não importa o significado de ação para a maioria, tem-se a inércia como algo relativo a um movimento: seja o equilíbrio estático ou o equilíbrio dinâmico.
Escrito por Ricardo às 02h36
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Mil noites de uma só noite
Acordo e já é noite. É minha noite, e se me permitam: pensarei menos e sentirei mais, como se fosse possível separa-los. O que hei de pensar? Divagar vem sendo a minha grande imperfeição, vem sendo o meu “tiro” ao contrário, o meu alvejar contra meu próprio espírito. Espírito ferido, vida mui ferida, choros que cheiram os resquícios da tchandala. Liberto tudo e fico preso e inerte e calado em mim mesmo. O que há de ser-meu está atrás do meu pensamento. Está já deitado tentando arrumar as milhares de bengalas ocas que os ventos sirocos carregam para longe de mim. Tantos ventos e ventanias que se carregam por existir e me levam por eu ser a aurora dessa existência – como se o “existir” se transmutasse em “partir”, e o ir embora é como ser carregado,quer seja por ventanias, quer seja por nós mesmos. Quantas e quantas vezes não fui carregado por amor, que agora “me” carrego e me levo e me entrego – por mim e em mim -, e por que será que isso virou o motivo do detestar dos que me carregaram em amor? Amar é o carregar quando não se precisa: é o supérfluo. O ódio é um levar por obrigação: é tudo o que não pertence ao sentido essencial humano. Reconhecem o detestável após os vários variados invioláveis e já passados anos?
Cansei de querer ser carregado. Todos os verbos infinitivos, guardei em sonhos que só posso sonhar-inconsciente e sonhar-imaginando. Só sonhando posso usar e abusar dos infinitivos, das conjugações inversas – dos graus exagerados, dos gêneros trocados -, e eis que a liberdade bate a minha porta. Eis que a acuidade da vida é a parte que não é vida. É parte que só é minha e a sua vida. Depois de entender que viver é agir por si próprio, é sentir sem cobrar outrem – é inteiramente não interpretar: uma tentativa já corresponde a um erro. Levanto e já é a noite, a noite que vem sempre dentro de uma espiral de escuridão completa com pontinhos brilhosos, que por entre um conceito inexistente de infinito, só vejo milhares de noites espaçadas e enoveladas cheias de jardins incolores e jardins que se absorvem, são as plantas que nada refletem. Agora quero só olhar e talvez chorar. De que me vale tais sensações se há algo que as reneguem como sensações exteriores? De que me vale contar estrelas e guardar os números já sem sensações? Não consigo sequer parar uma sensação. Não posso sequer segurar a idéia, pelo mesmo motivo que não pude ser carregado e levado para sempre. A idéia me foge, o sentir me foge, o amor – jamais tive um amor, mesmo assim, confesso aos meus impacientes e escassos leitores desta inconstância, que ele sempre foi embora: que o perdi sem jamais ter. O que vale é a presunção ideal que se esvai – e ela dói mais – o simples paraíso inalcançável não é o mesmo dos livros, porque um paraíso só é paraíso quando são nossas próprias representações – serão sempre o só um paraíso que temos de-nós.
O que faço com as minhas mil noites esquecidas? Deixo-as. Falta-me muita força para apaga-las – mesmo que as letras fossem os resquícios de carbono nas sinuosidades do papel -, faltam-me milhares de lixeiras que se guardem os livros. Guardar para um momento, porque o guardar para a posteridade é preciso muita força – e eu já perdi a vontade de me ver em força, de se ter qualquer vontade, de se guardar um momento para um além-momento – quem saberá por quanto tempo? Então, Ricardo, essa só é mais uma noite dentre as milhares de noites – noites de vida: para vida; noites de morte: sem ter a morte -. Só me é um medo a mais dos meus variados medos: é um medo num sentido de maior proximidade com um ideal-medo, porque é escuro e as estrelas brilham em distância – brilham em escuridão: são os pontinhos de vida que me faltam – e sempre faltarão- em vida. E deixo a luz do sol refletir a minha solidão. Essa iluminação que me causa surpresa, espanto, encanto – mas não é a causa do meu desalento-, é a mesma iluminação que causa um eterno medo. E por que não dizer que essa luz – que se apresenta em partes, partes-da-vida – é a mesma por onde escorreram as lágrimas pelo ódio, a capacidade que as pessoas têm de me detestar.
Escrito por Ricardo às 16h47
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Escrito na minh’agenda
A vida...O tempo...
Onde há aqui o que me pertence?
Tudo me são ondas, sempre indo e vindo...
E onde há o que de resto ficou?
Sozinho, e frágil sem o porvir...
Saudade...Muita saudade na lembrança do que não vivi.
Imaginei o meu mar, como um sonho:
Algo com que se ter sem realmente se conter
Um momento de lado, abaixo de si – os pedacinhos da areia dos meus sonhos, serão sempre as partes do meu infinito...
Viver o abismo sem ter uma rota própria – aonde ir, de onde vir;
Sorrir com a face-do-choro é-me o mais real,
Amar a vida é minha eterna despedida
Um adeus breve, que me encontro com todos os mares, e também toco e deito nos pedacinhos dos grãos de areia...
E o caminho para a vida é o meu caminho pelo azul fresco do mar, pelo sol ardente ou lua: que sozinha em seu brilho rouba o espetáculo dos céus...
Vivo enquanto sigo essa rota mui incerta para o meu infinito...que é meu lindo e doce querer dum momento...
Um silêncio-de-flor – se não houvesse o silêncio, não seria a minha “flor”: se és uma lua, um sol, uma flor, os grãos minúsculos de areia: então se tens “eternamente” em silêncio.
24/06/04 – 03:--
ricardo
Escrito por Ricardo às 12h08
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Acordo:
Viver é-me pensar
Olho a mim que há de mim
Vou-me, sigo: - prolongar até o infinito? -
Paro irônico na poeira-vida que me prende em inércia
Vivo a ferrugem-imunda da lembrança do dia que não vivi
Sobrevivo na imaginação nostálgica duma idealização dos meus eus.
São meus fragmentos de cinza que transmutam as cores de entendimento alheio.
E a vida-mundo são fragmentos de representação em que reside a minha vontade em si.
Universo é o infinito, ou seria a imaginação infinita?Infindo é o meu eu fora-de-mim e de-si
Fragmento útil é o que há dentro-de-mim, são as representações das minhas sensações.
O lirismo vital da minha existência é interexistencial: não era quando a vida já era.
Então não fui como um universo em-si, estive na essência doce das flores.
Sou a metafísica das flores: enclausurado-racional,sem respostas-fim
Que houve de mim- que há em mim- foi um palco-geóide vazio
Nulo de vozes no vácuo, imperfeito na esfera da vida.
Viver é um falsídico além num canto de canto
Sem a presunção da certeza
Viver é não conseguir:
Durmo.
Escrito por Ricardo às 21h34
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Ensaio Sobre o Quotidiano
Caminhei seguindo por entre obstáculos de meu sofrimento incessante, caminhei a ponto da razão me direcionar para a escuridão que despia meus olhos – a consciência que ardia em tristeza, ignorância e ira – percorria este lugar todo manchado de mágoas e lamentações, tentava organizar fragmentos de meu humilde labor obtendo assim um pouco de paz e harmonia, rodo a chave na maçaneta e sinto a brisa urbana, sinal da fina garoa atenuando meus sentidos, ela cai suavemente entre ruas, prédios, transeuntes e toda sua parafernália moderna, cai como uma poção de benção fraterna que me acolhe e balsamiza toda esta região lugupólica*, acalentando seu infeliz aspecto...
Sono Reparador
Seiva da alma
De labor gratificante
Luz de sabedoria
Semente do bem
Êxtase de cores vivas
Canções recitam os bosques
Levitam serenamente
No descompasso da dor
Inércia de sentidos
Esgotamento de ilusões
O esconderijo do ego
Verte lágrimas o sofrimento
Reconforta-te o arrependimento
A velha casa da consciência.
*Lugupólica: deriva-se da fusão de lúgubre + polis; ou seja, cidade do sofrimento, cidade sem vida.
Escrito por Sid_ às 19h59
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“Feliz dia das mães! Feliz a mais um dia em que me lembro que envelheço. Felicidade a todos os cantos cheios de poeira da minha velha casa. Festividade para um dia de contexto falido. Comemoremos o festim para que não esqueçamos de lembrar em algum momento, que qualquer dia formal, cheio de recheios e vazios de lembranças, não se apague com a nossa tristeza.”
Hoje quero contar. Foi muito estranho chegar às 15:30 em casa, e não ter coragem de comemorar nada. Nem ao menos falei a minha mãe, de sua importância. Para que falar?. Acho que já sei porquê. Não acredito na importância de nada quando não creio que a minha voz tenha algum ruído. Então, ela gruda em todos os anos, ela se perde por todo o tempo. Agora, o que poderei fazer para minha família e “famílias”? Nada. To cansado demais para achar que qualquer ação minha vá ser positiva no sentido de acrescentar algo. Então faço parte assim como faço parte do mundo, logo, inexisto em ambos, coexistindo apenas no meu espaço, no físico.
Nunca serei algo idealizado, porque não permito isso, sou incapaz de ser a essência perfeita para outrem. Cansei assim, de ser sempre o resto de tudo. De estar sempre depois da concepção de bom e de mau que as pessoas criam para si. Da concepção de ideal perfeito.
“Eu não tenho par nisto tudo neste mundo”.........
Bem, vou colocar um trecho da minha nova aquisição: “Aurora”, do Nietzsche. To empolgado com esse livro mesmo sabendo que talvez eu não o leia todo. Não venho lendo nada e to escrevendo essa subjetividade-objetiva absurda de sempre. Um dia eu paro de amolar “vocês” e cobrar que leiam essa parte feia dos meus variados “feios”....Agora eu vou dormir, voltar pro meu canto. Ah, hoje eu fiquei cotidianamente triste, e isso eu me adeqüei, criei mecanismos de defesa. Até escrevi algo antagônico na minha agenda-inversa, e isso é bom em vista dos textos passados lá contidos. É porque eu estava mal mesmo e o sol fez com que eu não desistisse, então foi algo como “ser muito fraco e escrever algo forte”. Foi antagônico duplamente. O interessante é que to escrevendo de trás para frente, então comecei num final de depressão ao início do meu mundinho ‘encantado, florido com a minha inocência”. E, creio que eu vá terminar a agenda escrevendo coisas de alguém encantado com a diversidade do mundo, assim sendo, o final dos escritos será o início formal da agenda. E eu voltarei ao final-agenda, início-escritos, sempre estarei pendular ali...Até que a vida acabe sem eu ter entendido sequer o sentido de qualquer escrito-vida.
Eis o texto:
“--E finalmente: por que deveríamos dizer tão alto e com tal fervor aquilo que somos, que queremos ou não queremos? Vamos observa-lo de modo mais frio, mais distante, com mais prudência, de uma maior altura: vamos dize-lo, como pode ser dito entre nós, tão discretamente que o mundo não nos ouça! Sobretudo, digamo-lo lentamente...Este prólogo chega tarde, mas não tarde demais; que importam, no fundo, cinco ou seis anos? Um tal livro, um tal problema não tem pressa; além do que, ambos somos amigos do lento, tanto eu como meu livro. Não fui filólogo em vão, talvez o seja ainda, isto é, um professor de lenta leitura: --Afinal, também escrevemos lentamente. Agora já não faz parte apenas de meus hábitos, é também de meu gosto—um gosto maldoso, talvez?—nada mais escrever que não leve ao desespero todo tipo de gente que “tem pressa”. Pois filologia é a arte venerável que exige de seus cultores uma coisa acima de tudo: pôr-se de lado, dar-se tempo, ficar silencioso, ficar lento—como uma ourivesaria e saber da palavra, que tem trabalho sutil e cuidadoso a realizar,e nada consegue se não for lento. Justamente por isso ela é hoje mais necessária do que nunca, justamente por isso ela nos atrai e encanta mais, em meio a uma época de “trabalho”, isto é, de pressa, de indecorosa e suada sofreguidão, que tudo quer logo “terminar”, também todo livro antigo ou novo:-- ela própria não termina facilmente com algo, ela ensina a ler bem, ou seja, lenta e profundamente olhando para trás e para diante, com segundas intenções, com as portas abertas, com dedos e olhos delicados...Meus pacientes amigos, este livro deseja apenas leitores e filólogos perfeitos: aprendam a ler-me bem!”
Ruta, próximo a Gênova, outono de 1886.
Friedrich Nietzsche.
Escrito por Ricardo às 17h49
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